
Peregrinos – parte 2
- Caneta Peregrina null
- 4 de fev.
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O primeiro a subir no pau de arara foi Anastácio. Era um Fargo robusto, 1950, enferrujado e lotado de outros migrantes. Uma lona sustentada por ferros protegia os viajantes, mais do sol que da chuva. O espaço era pouco e apertado; todos tinham de se acomodar como desse nos bancos de madeira dura. O interior estava preenchido por pequenos de rostos sujos de poeira.
Entre os retirantes, havia uma mulher jovem, encostada na carroceria, com um saco de roupas na perna; sobre o volume, um bebê de 6 meses com chupeta na boca dormia, suado, alheio ao movimento. Em pé, Anastácio também avistava outra moça caminhando em direção ao transporte. Esta equilibrava uma mala na cabeça e uma criancinha, sustentada por um pano envolto em suas costas e amarrado na cintura, formando um ninho onde o filho parecia tranquilo no regaço materno. A mãe tinha o olhar preocupado, vincado em um rosto magro, porém resignado à longa e temida viagem que a aguardava. Também ocupava o vão entre homens de rostos sérios e cigarro na boca, idosos com olhos, pele e mãos que denunciavam a crueldade da vida.
Espremidos, alguns penduravam as pernas para fora a fim de ganhar mais liberdade. Anastácio ergueu os meninos mais novos para dentro; o mais velho quis subir só; por fim, Zumira subiu os pés cansados na escada improvisada que rangia, entortava e tremia, enquanto era ajudada pelo marido. A mulher sentou-se procurando encaixar os pés por baixo dos garotos que dormiam no chão, sem acordá-los.
Ao final de todas as acomodações, o condutor do Fargo, de óculos escuros e camisa de botão aberta, mascava tabaco enquanto passava a vista nos passageiros.
— Falta quanto chão, seu moço? — quis saber Anastácio.
— Depende. Deus gosta do senhor? Se gostar, uma semana e meia, por aí — respondeu o homem, após cuspir saliva preta pelo canto da boca. — Se não, cê acerta as conta no cemitério da estrada.
Anastácio olhou para Zumira enquanto ela tirava a tampa da cabaça para dar água aos meninos sedentos. Ela fingiu que não ouviu.
Por fim, com todos acomodados, o sujeito entrou na cabine. Diante do rosário pendurado no espelho, fez o sinal da cruz, ligou o motor barulhento e deu a partida.
Na carroceria, as crianças se atreveram a um leve sorriso de canto de boca.
***
A viagem demorou muito mais que o prometido. Foram dez dias no sacolejo do caminhão, com paradas que aconteciam à revelia do motorista. Finalmente, encostaram num posto quase em ruínas, guardado por um sujeito de cara amarrada e seu companheiro: um cachorro magro, todo agitado e lampeiro com a meninada que chegava; os pequenos brincavam com o bicho, coisa difícil de se ver na vida curta daquele vira-lata.
Uma mãe de olhar tristonho desceu da boléia e sentou-se, mais afastada, num banco velho encostado na parede, ajeitando o bebê no seu peito. Zumira desceu logo atrás dos filhos, carregando uma trouxinha de roupa e um pedaço de sabão de coco que ganhou na partilha entre as comadres. Avistou, num canto do posto, uma torneira pingando. Quando abriu, a água deu um estalo e saiu com força, num jorro só, mais do que ela podia dar conta. Fazia barulho, abria buraco no chão e criava lamaçal, sujando seu vestido de chita; parecia que a força do cano ia quebrar a torneira.
Aquilo atiçou a curiosidade dos meninos, que logo cercaram a bica, bebendo direto do jorro e pisando no barro com gosto, de pés descalços. Molharam o cabelo e o corpo miúdo. As outras mulheres também chegaram para aproveitar aquele alvoroço que a molecada fazia. O cachorro lambia a água das poças que se formavam. O ar refrescou para Zumira. Aquele fio de água espantou o mormaço da gente e a quentura que ela carregava no peito há tantos anos. Como se fosse um retrato, a lembrança trouxe uma Bíblia aberta, num trecho que dizia de rios correndo de dentro de quem tivesse fé em Jesus. "Seria aquela a sensação? O calor indo embora e ficando só o frescor por dentro? Que água bendita saía dali.
Onde estaria o Livro que ganharam do missionário? Olha o riso desses meninos. Será que Anastácio guardou a Bíblia na trouxa? Faz tempo que não ouço uma risada tão boa". Os pensamentos de Zumira foram cortados por um grito alto e demorado de dor, como se alguém despencasse de um despenhadeiro. A algazarra minguou. O silêncio foi chegando de mansinho, até sobrar só o apuro dos ouvidos buscando o paradeiro daquele lamento. Caminhando, Zumira viu o amontoado de gente; abriu caminho e avistou o pranto da mãe do bebê. Se achegou, pôs a mão no peito da criaturinha ainda no colo e sentiu o bater do coraçãozinho.
— O menino tá vivo! Bora, ligeiro!
— O motorista disse que faltava um estirão. Na cidade tem hospital.
Logo, o desespero de Zumira correu o lugar:
— Cadê o motorista? Onde se meteu o motorista?
O dono do posto se aproximou e falou com o coração quebrantado, que a cara de bravo não deixava mostrar:
— Ele foi embora.
Correndo para a estrada, Zumira ainda avistou a figura de Anastácio na carroceria, cada vez mais longe, se dissipando assim como a poeira que o carro deixou. E, sentindo um fogo subir pelo peito, pela primeira vez, desejou que Anastácio não voltasse.


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