
Bom, Feio e Verdadeiro
Essa obsessão recente pela beleza sempre me incomodou desde que ela deu as caras querendo invadir até mesmo a maneira como me calço e me visto no meu pequeno reino que chamo de lar. Não me compreenda mal, eu gosto de coisas belas, como todo mundo. Sei que há uma desconstrução deliberada da estética. Eu acho que Deus também ama coisas belas, e nós puxamos a Ele. Sou reincidente do belíssimo, necessário e famoso documentário do Roger Scruton. Acho que a beleza nos enleva, eleva e transcende. Sei que essa compreensão vem desde a filosofia antiga e, percebi que suas cores foram reavivadas pelo pensamento católico e adotado pelos protestantes, num movimento que busca "restaurar a ordem perdida", "redimir a cultura". O bom, o belo e o verdadeiro. À primeira vista, parece uma tríade perfeita, inquebrável, sonoramente gostosa de pronunciar, um pensamento harmonioso e quase celestial. Mas...quando essas palavras, perfeitamente combinadas, são colocadas na peneira, do garimpo da Escritura, o ouro começa a se separar do barro. Veja, a Bíblia exalta o Bem e ama a Verdade, mas trata a beleza com uma desconfiança santa. Como uma montanha de onde podemos contemplar as mais belas paisagens, mas com solo escorregadio e trechos incertos e perigosos para pés desatentos. “Enganosa é a graça, e vã é a formosura, mas a mulher que teme ao Senhor, essa será louvada" (Provérbios 31:30). Vã. O que é vã? Algo inútil, sem valor, vazio, sem fundamento ou irreal, fútil, frívolo, ilusório ou presunçoso, oco, sem conteúdo, que não serve para nada, sem propósito ou resultado (A lista continua). Enquanto colocamos a beleza em um pedestal e prestamos a ela a devida veneração, a Bíblia diz que ela é vã. Agora, venha comigo a este monte chamado Calvário. O auge de toda a beleza aconteceu numa cruz preguiçosamente talhada, e foi repulsivo. Esqueça a harmonia das formas, a perfeição foi banhada em sangue, a estética foi atropelada pela dor, sede e suor fétido, e a simetria apagou-se com gritos horrendos de pregos cravados em mãos santas. O ápice de toda formosura não se permitia ser contemplada como um quadro de Caravaggio. Os rostos fugiam consternados e envergonhados. O corpo mais belo já exposto, não era um mármore esculpido por Michelangelo. Ele estava rasgado, furado e ensanguentado. “Era desprezado e o mais rejeitado entre os homens, homem de dores e experimentado nos trabalhos; e, como um de quem os homens escondiam o rosto, era desprezado, e dele não fizemos caso. (Isaías 53:3). Onde estava a beleza no Filho de Deus? Onde estava a formosura no Redentor do mundo? Isaías responde sem rodeios: Não tinha aparência nem formosura; olhamo-lo, mas nenhuma beleza havia que nos agradasse (Isaías 53:2). O momento mais glorioso da história, foi feio aos olhos humanos. A cruz não era bela. Era escândalo. O evangelho não era elegante. Era loucura. O Cristo não era formoso. Era rejeitado. E, ainda assim, era verdadeiro. O problema do fascínio contemporâneo pelo “belo” é que ele tende a produzir uma fé que aprecia catedrais, tons terrosos e mesas postas, mas tropeça na cruz. Que ama a ordem, a organização e o perfeccionismo, mas rejeita o arrependimento. Que admira Cristo como símbolo, mas não suporta Cristo como Senhor. Quando Cristo, a Beleza em pessoa, se sacrificava por Seu povo, não pensou em fazer isso, em vestes reais. Quem colocou uma coroa em e o vestiu com um manto, foi quem estava escarnecendo dele. Quando estivermos no meio do dia, nos sacrificando pelos nossos, pense em como isso é bonito, e como imito o meu Senhor, ainda com meu cabelo desgrenhado. Há beleza no sacrifício. Não estou defendendo a desordem, eu te convido a fazer com que isso não seja um estorvo e uma preocupação demasiada. Afinal, foi pra isso que Jesus morreu, para que nosso fardo seja leve. No fim, quando toda beleza murchar e quando todo belo ideal humano ruir, restará apenas isso: a verdade eterna e gloriosa de um Cristo que venceu não pela beleza, mas pelo sangue.
Não o bom, o belo e o verdadeiro dos filósofos. Mas o bom de Deus, o feio da cruz, e o verdadeiro que salva.




Comentários