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Cheiro de peixe assado com perdão

Foto do escritor: Caneta Peregrina null
Caneta Peregrina null
6 de jun.
4 min de leitura

Você lembra a primeira vez que foi à praia? Eu tinha mais ou menos 5 anos. Foi numa viagem de Pedreiras até um bairro de São Luís chamado Coqueiro, onde minha vó foi visitar minha tia. Minha tia era esposa de um engraçado pescador apelidado de Xaréu. As noites em que passávamos lá, a família inteira ficava sentada do lado de fora da casa, iluminada apenas pela lua, ouvindo as histórias de pescador: lobisomens, aparições, visagens, encontros estranhos e coisas inexplicáveis. Era amedrontador, mas também fascinante. Quando ele anunciava que contaria uma dessas histórias, cada um protestava de acordo com o seu desejo: "conta, conta!"; outro dizia: "não conta, não conta!". Mas a história horripilante sempre vencia, e cada um agarrava o braço em que se sentia mais seguro e apurava os ouvidos.

As manhãs tinham gosto de juçara com farinha e camarão; não para mim, que odiava. Depois do café, acompanhávamos o tio até a maré. Eu ficava brincando à beira-mar, catando todo tipo de coisas interessantes, sentindo o cheiro forte de peixe no ar, com os pés gostosamente desconfortáveis nas pedrinhas lisas da orla e ouvindo o marulho das ondas indo e voltando.

Curiosa, fui à margem atrás de peixinhos, molhei os pés, chutei a água, me abaixava para olhar mais de perto os alevinos, molhei a roupa, levantei e entrei mais fundo. Foi quando escorreguei numa área instável, onde a água me puxava e trazia de volta. Eu tentava me agarrar a alguma coisa e não achava nada em que me segurar. Levantava a cabeça e respirava, olhei ao redor e não havia ninguém. Eu não conseguia falar nem gritar; só conseguia usar a boca para tentar respirar.

Acho que isso durou alguns segundos que pareceram horas para minha percepção de tempo de apenas 5 anos. Eu abria os olhos embaixo d'água e conseguia ver a água turva clareando na superfície. Eu me debatia e, finalmente, consegui me agarrar a algo, que devia ser uma plantinha selvagem na beirada do mar. Dizem que mar não tem cabelo, mas, nesse dia, Deus providenciou um para eu me segurar e, assim, consegui escapar das estatísticas de crianças afogadas.

Naquele dia, eu descobri como o mar é mais forte e mais poderoso do que eu; como a correnteza me puxava para onde eu não queria ir e como meus braços fracos e pequeninos não podiam lutar contra ela.

Anos depois, descobri a história de um pescador que também foi arrastado pelo mar várias vezes e conseguiu ser salvo na beira da praia. Pedro foi arrastado pelo mar do medo quando avistou Jesus andando sobre as águas e foi ao Seu encontro, as águas quase o engoliram quando Cristo o agarrou. Pedro foi arrastado pelo mar da prepotência quando anunciou que morreria por Cristo, ainda que todos O negassem. Pedro foi arrastado pelo mar da repreensão severa quando foi chamado de Satanás por Aquele a quem amava. Pedro foi arrastado pelo mar da culpa quando ouviu o galo cantar pela terceira vez. Pedro estava afogado, sem respirar, sem ninguém que o salvasse; Pedro foi puxado a fazer o que prometeu que jamais faria: negar a Jesus, Aquele que o notou, que o chamou, que o ensinou, que curou sua sogra. As águas da apostasia são profundas. Mesmo depois de Jesus ressuscitado, o mar ainda estava turvo a seus olhos do apóstolo. A tristeza inundava sua alma, indigna de participar da ressurreição do seu Mestre amado, a quem abandonou. Quando Jesus encontrou-se com as mulheres ao saírem do túmulo, Ele disse: vão e digam aos meus irmãos que me encontrem na Galileia. Sete discípulos foram ao encontro marcado. Já de noite, Pedro não esperou no local, subiu no barco e foi pescar. Ao voltar com as redes vazias, viu Jesus. A vergonha não o segurou. Pulou do barco, deixando os outros discípulos para trás com as redes cheias do milagre do Mestre. Jesus preparou o café da manhã dos pescadores na beira da praia, com os peixes que fez surgir do nada. Enquanto Pedro estava sentado mais afastado, Jesus chegou e sentou-se junto ao pescador arrependido. E a voz serena e mansa misturou-se ao crepitar da fogueira:

"Simão, filho de João, amas-me mais do que estes outros? Ele respondeu: Sim, Senhor, tu sabes que te amo. Ele lhe disse: Apascenta os meus cordeiros. Tornou a perguntar-lhe pela segunda vez: Simão, filho de João, tu me amas? Ele lhe respondeu: Sim, Senhor, tu sabes que te amo. Disse-lhe Jesus: Pastoreia as minhas ovelhas. Pela terceira vez Jesus lhe perguntou: Simão, filho de João, tu me amas? Pedro entristeceu-se por ele lhe ter dito, pela terceira vez: Tu me amas? E respondeu-lhe: Senhor, tu sabes todas as coisas, tu sabes que eu te amo. Jesus lhe disse: Apascenta as minhas ovelhas."

E, depois de o vento frio do mar esbofetear seu rosto, a fogueira construída por Jesus aqueceu seu coração com o calor do Seu perdão. Jesus restaurou o corpo de Pedro, a alma de Pedro, a liderança de Pedro e o ofício de Pedro como pescador de homens, enquanto deixava a lição para nós: não podemos salvar a nós mesmos. Nossos braços são fracos perante o poderio do mar, porém existe alguém nos esperando à beira da praia. A violência marítima não é páreo para a mansidão do Criador do mar. Ele nos resgata das ondas do medo, da dúvida, do pecado. Ele vem em paz sentar-se ao nosso lado. Portanto, da próxima vez que o passado insistir em te lembrar do pélago impetuoso e amedrontador, pare e preste atenção: está sentindo esse cheiro de peixe assado?


 
 
 

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