
"Senhor, foi a mãe que tu me deste"
- Caneta Peregrina null
- 20 de fev.
- 3 min de leitura
Vez ou outra vejo alguém colocando a culpa dos seus problemas na mãe. “Eu sou muito retraída, foi por causa da minha mãe, que me mandava ficar quieta.” “Hoje tenho dificuldade em pedir ajuda, minha mãe sempre mandava eu ‘me virar’.” “Eu sou muito perfeccionista, culpa da minha mãe, que era muito exigente.” Seguimos com a velha tradição de Adão de jogar a culpa dos pecados em alguém. Os tempos mudaram, mas os ouvidos do Senhor ainda ouvem: "Senhor, foi a mãe que tu me deste". Penso nisso porque, quando olho para a minha infância, vejo diante de mim a minha mãe imperfeita, como todas as mães, de todas as gerações passadas e — sinto dizer — de todas as das gerações futuras. Dentre as falhas da minha mãe, a dureza sempre se apresentava no seu modo de tratar, e o toque físico não fazia parte do seu repertório de carinhos. No entanto, essas são lembranças que quase são sufocadas pela grandeza das pequenas coisas que ela fazia. Ela perdoou o esposo durante toda a sua vida; perdoou mais do que Jesus pediu que se perdoasse. Ela cuidou dos nove filhos sozinha, sem jamais abrir a boca para reclamar. Me salvou uma vez de ser pisoteada por uma manada de bois. Ela notava a vizinha doente e a chamava para tomar uma sopa. Plantava hortas de cebolinha e coentro e vendia somente para ofertar ao Senhor. Eu via, no meu dia a dia, ela transformar semente e terra em adoração. Ela cuidava dos animais que criava e tinha muita pena dos que se machucavam. Ela tinha horror a criança apanhando. Ela não sabia o que era preguiça. Ela fazia o próprio sabão e plantava e colhia o próprio arroz. Ela cozinhava todos os dias. Ela limpava e varria a igreja como se estivesse derramando perfume nos pés de Jesus. Ela cantava “Oh, porque Jesus me ama” quando estava alegre e quando estava triste.
Ela envelheceu e ficou senil. Os cabelos ficaram brancos, a pele tornou-se enrugada e o coração, machucado pela ingratidão dos filhos, mas jamais deixou de amá-los com todo o seu ser. Ela morreu sem saber do paradeiro da filha que saiu de casa. Na pedra fria de um hospital foi onde vi o rosto sereno da minha mãe pela última vez. E foi ali que deixei os seus defeitos.
Tudo o que ela fez e passou em vida jamais poderia ser suplantado por qualquer falha que ela cometeu. A lembrança dos seus pecados tornou-se uma fina névoa da manhã, que vem e vai embora com o calor do dia, que aparece somente para lembrar-me que ela também precisava de um Salvador.
Mas ela tornou-se sagrada para mim, e eu escolhi não me ancorar nos defeitos dela para justificar minha indolência ou me deixar confortável no meu pecado. Escolhi o jugo de Jesus; é mais suave e mais leve usar as qualidades da nossa mãe para construir a nossa estrada de tijolos amarelos por onde você iremos caminhar. Passar a borracha intencionalmente em todas as partes feias e deixar só as bonitas. Deixar um borrão ou outro pra lembrar do Pintor por excelência que ainda vai retocar a história com o "Gran Finale". Sejamos gentis com nossas mães.
Amanhã serão os nossos filhos. Eles vão replicar o modo como honramos nossos pais. O que eles falarão a respeito de nós? Eu não sei, mas desejo, do mais profundo do meu coração, que eles digam: “Nossa mãe era cheia de defeitos, mas nada poderá suplantar o fato de que ela nos deixou o que tinha de mais precioso: Cristo. Ela nos deixou Cristo e, por causa disso, hoje somos salvos.”




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